17 abril 2010

Sobre esquecer

Ok, que era pra eu escrever sobre as aventuras no Nordeste, sobre o que aprontei, ou deixei de aprontar por lá, falar que Tapioca de lá é mais gostosa que aqui no Sudeste, contar que peguei um bronzeado super bacana (mas que já tá descascando).

Contar que uma guria gorda e vestida de branco me agarrou na balada, me deu uma chave de perna e a Baiana me salvou. Contar para vocês que, sim, eu fiquei com algumas gurias em Salvador. Que uma delas inclusive nasceu no mesmo dia e faz o mesmo curso que a Baixinha fez na faculdade e que ela tinha um sorriso tão bonito quanto o da minha falecida mulher, atual amiga, a eterna Baixinha. Que aliás agora dá vontade de chama-la pelo nome uma vez que Baixinha eu usava pra me referir quando nós não tínhamos mais contato, coisa que hoje mudou. E muito.

Mas, todavia, porém, contudo, não vou escrever sobre a viagem. Não vou contar que passei longas horas no aeroporto por conta da maldita fucking chuva no Rio de Janeiro, cidade na qual eu tinha conexão. Não quero falar sobre isso, a importância que esse viagem teve foi outra. Foi me afastar, me reencontrar com certos valores meus, mas não enquanto viajava, me encontrei agora... Ou acho que me encontrei. Foi bom ter viajado? Foi maravilhoso. Mas voltei a realidade. Lenta e gradualmente.

Boas conversas tem acontecido. Bons pensamentos têm me acompanhado.

E tenho pensado muito em muitas coisas.

E hoje estou pensando em esquecer. Não em tomar uma decisão, mas no processo de esquecer alguém.

Você pode deletar alguém do orkut, msn, twitter, gtalk e todas as outras redes sociais possíveis. Pode bloquear no facebook, pode mudar seu número de telefone, não atender ligações, deletar e-mails sem ao menos se dar ao trabalho de lê-los.

Pode fugir, pode atravessar a rua quando por acaso encontrar no mesmo caminho. Você pode fingir pro mundo e mentir pra si mesmo que não conhece mais alguém e que esse mesmo alguém não faz mais parte da tua vida, ou melhor: fingir que esse alguém nunca fez parte de qualquer coisa relacionada a você.

Mas... porém, no entanto, todavia, isso será apenas mais uma mentira. Mais uma dessas tantas que eu conto, que você conta, que todo mundo conta, uma hora ou outra, dessas que teoricamente não são por mal, dessas que são uma espécie de proteção contra a dor, mas que ainda assim, por mais que sejam boas, são mentiras. São fatos não reais, irreais, inventados, fantasiados, etc e tal.

Porque por mais que você tente, eu tente, a gente tente, todo mundo tente mascarar aquelas lembranças-filha-da-puta, aquelas mais indesejadas, aquelas que por mais que sejam boas nós simplesmente não queremos lembrar naquele instante, nesse instante ou num instante qualquer, as lembranças ainda estão lá. E que por mais que tentemos nos forçar a achar que nada aconteceu, no fundo a gente sabe que só estamos nos enganando numa tentativa besta de não sentir dor. Porque esquecer dói.

Tentativa que acaba causando ainda mais dor. Algo que causa dor aqui, causa dor aí, causa dor em tantos outros lugares, em tantas outras pessoas.

Esquecer dói. Por mais que você finja que não. Dói, porque do nada você lembra de uma coisa completamente boba e aquilo te lembra que você tinha alguém, e que alguém passou pela tua vida. Dói porque você se lembra de todo aquele processo voluntário - ou não - da partida de alguém. Dói porque você lembra as coisas boas e as ruins também. As boas doem porque não temos mais, as ruins, bem porque são ruins mesmo.

Terminar e esquecer dói.
Mas fingir que não existiu não ajuda a esquecer.

Você pode deixar de sentir algo por alguém, pode ter se enganado com relação a esse sentimento por alguém, e isso não é feio, não é errado - todo mundo erra, todo mundo se engana - mas nada disso faz com que você não tenha vivido algo.

E se somos hoje fruto das nossas vivências, e a tendência da maioria dos seres humanos normais é tentar melhorar, então partindo do pressuposto de que hoje você é uma pessoa melhor, logo, aquela pessoa que você quer fazer de conta que não existe, que não existiu e que nunca fez parte da tua vida, aquela pessoa é parte também dessa melhora.

O passado é base do presente. Nada acontece sem porquês. Por mais que não seja saudável ficar procurando o por quê de tudo.

Só não dá pra ficar negando e fugindo de algo que é real. Não falo do sentimento, não falo do amor, se esse foi ou deixou de ser real, falo da realidade de ter vivido algo, por mais que tenha sido um equívoco, ou não. Vai de como você encara quem você é e como você tornou-se quem você é hoje.

E todo mundo procura ser alguém melhor.
Eu procuro ser alguém melhor. Por mim, pelos outros, pela vida. Pra fazer isso aqui valer a pena, sabe. E nessa busca todo mundo erra.

O lance de crescer e amadurecer é justamente isso: é ver que errou e tentar consertar a cagada. Não digo consertar pra tornar a ser o que era. A vida não pode de ser vista como um vaso que você quebra e depois tem que monta-lo exatamente igual aos segundos antes dessa quebra. O segredo é querer melhorar. É saber o que é importante, é saber dar valor a quem você tem do seu lado, saber cultivar amizades. Porque amizades no fundo também são amores. Ninguém vive sozinho, por mais que tenhamos a liberdade de escolher quem convive conosco, por mais que você queira viver sem alguém ao lado, ou se internar num mosteiro longe da civilização. Pra haver vida, desde o princípio é necessário que hajam dois.

Você pode odiar sua mãe do fundo da tua alma, pode não ter uma convivência bacana com teu pai, pode ainda querer matar teu irmão às vezes. Pode morar anos longe, aprender a viver depois que eles morrem, mas não dá pra fazer de conta que eles nunca existiram.

Teu passado fica.
Fica numa marquinha ou outra na tua alma. Fica por mais que você tenha raiva.
Porque só pelo fato de você ter raiva já significa que houve algo pra que essa raiva surgisse.

Ignorar um problema é diferente de solucioná-lo. A dor continua latente, você só acostuma com ela, mas ela não deixa de existir. E dor geralmente é sinal de que tem algo errado acontecendo.

Eu sempre preferi conversar e falar tudo o que sinto. Sempre falei demais. Sempre disseram que isso talvez fosse um erro. Mas prefiro errar tentando acertar do que assistir minha vida indo por água abaixo, sem ter controle algum. Eu demonstro, sim, o que eu sinto. Da raiva mais intensa, do ódio momentâneo mais profundo até o sorriso mais bobo de felicidade, até a lágrima, ainda que no escuro duma saída de emergência. Eu não ligo de sentir. Não ligo de viver.

Sabe, eu já tentei fazer de conta que não aconteceu nada. Já tentei ficar mentindo pra mim, já encenei raiva, desprezo. Já disse que sentia falta quando não sentia, mas depois disse a verdade (direta ou indiretamente). Mas o que posso fazer se do nada algo acontece e meus neurônios trabalham de forma que eu me lembre de algo?

Tentar esquecer faz com eu me lembre ainda mais. Ignorar algo faz com que esse algo fique pulando a minha frente. É igual o Windows. Você baixa aquelas atualizações automáticas o computador precisa reiniciar, mas você faz de conta que nada aconteceu, a cada espaço determinado de tempo ele vai te lembrar que "Ei, preciso começar de novo, preciso reiniciar". Você ignora, parece que nada aconteceu, mas é só durante um tempo, depois surge um aviso de novo.

A vida também manda seus avisos.
Às vezes é um conselho babaca duma pessoa que você mal conhece.
Às vezes é um conselho babaca de alguém que você não curte. Às vezes é um sinal. Outras o sexto sentido. Outras é um outdoor gigante na tua frente.

Tudo isso serve pra você questionar. Questões nem sempre retornam respostas, mas diz que você tem interesse em descobrir algo. Que você se importa. E tem horas que você recebe respostas que não queria ouvir. Depois de tudo isso você ainda pode decidir como agir, se vai ignorar ou não.

Mas cada decisão envolve uma consequência. E aí voltamos no lance de crescer, de amadurecer. Porque no fundo, no fundo, é tudo uma questão de tornar-se responsável. Responsável pelo o que você sente, pelo que se permite sentir, ou por aquilo que você provoca nos outros. E esses outros também tem o direito de decidir como levar, como agir diante disso.

E no fundo todo mundo tem suas próprias mentiras. O fato de acreditar nelas ou não, de desejar que essas mentiras sejam verdades, não faz com que elas se tornem verdades de verdade.



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ps:Post escrito ao som do Felipecha

5 já falaram

Anônimo disse...

Hum...dificil, né? Tentar esquecer o inesquecível...rs. Nada como o tempo. Fim de um relacionamento, de um gde amor é como se fôsse morte de alguém, que só o tempo se encarregará de tornar suave a falta, o vácuo. Não tem como fugir, como fingir, negar a existência. É viver e sentir tudo o que tem direito, e aprender muito a lapidar o sentimento para crescer.

Abraços
Krn

Little_p disse...

Ficar nessa vibe de se forçar a esquecer, realmente não nos leva a lugar algum...certas coisas n tem que ser esquecidas...e no futuro a gente ve que lembrar delas é ate gostoso...é saudavel...dá uma sensação boa.
abço

J.e.L disse...

Porra, Pri.

Esse teu texto tá tão foda que não tenho nem o que dizer, já disseste tudo.

Adorei.

Ju.

Deathtagrazyta disse...

Oi...
sou fã do seu blog, mais nunca tive uma oportunidade de comentar (melhor dizendo, me falta as palavras, como agora rsrsrs).
Seu blog é lindo, seus textos melhores ainda.
Tentar esquecer é a maior burrice que o seu humano tenta em vão fazer... Porque tá na cara que quanto mais se tenta mais se lembra.
Bjão e desculpe a demora e parabéns!!!

Mariana disse...

Deveriam existir mais pessoas como você no mundo. Fique bem.

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