20 março 2009

As mulheres da minha vida: O primeiro grande trauma

Resolvi dar uma pausa nos estudos para escrever sobre o primeiro trauma na vida dessa que vos tecla. Em verdade eu deveria estar lendo sobre semiologia, significados e significantes. Mas é que o trauma de adolescência foi algo grande e merece ser contado nessa série de posts, posts os quais fazem cair toda e qualquer máscara eu tenha utilizado algum dia.

Aliás aproveito para lembrar vocês de sempre passarem o mouse em cima das palavrinhas vermelhas, afinal são links para que vocês possam entender melhor a minha história.

Sobre o trauma é bom contextualizar vocês sobre algumas coisas: Eu tinha 16 anos, sempre estudei em escola pública. Já tinha meu grupo de amigos formado. Nessa época eu estava deixando de ser nerd e tinha uma certa popularidade na escola. Afinal tinha estudado desde os oito no mesmo local. Passaram professores, diretores, coordenadores e eu fiquei. Nessa época eu também era representante de sala e tesoureira do Grêmio Escolar.

Hoje são poucas as lembranças sobre o acontecido, mas durante muito tempo até o cheiro da Mineira era presente na minha vida: Fechava os olhos e podia sentir com facilidade aquela fragrância.

Das poucas coisas que ainda lembro é que era final de agosto de 2001. Ela veio transferida de escola. Eu estava no segundo colegial, era uma das melhores alunas da sala e meio metida à "mamãe quero ser pop". Ela chegou e sentou na carteira atrás da minha. Se eu não me engano era aula de inglês e o tema era Halloween. Sentou sozinha, afinal não conhecia ninguém. De cara eu já achei bonita. Uma morena alta, com algumas marcas de espinha no rosto. Cabelos escuros e encaracolados. A primeira morena que me chamou atenção. Eu puxei papo, é lógico, até porque se ela iria estudar mesmo na minha sala, uma hora ou outra ela teria que se enturmar, e eu é que não queria ela na turma das patricinhas chatas.

Virei pra trás e puxei papo. Nos dias seguintes a Mara, que fazia dupla comigo, começou a sentar com ela. A Mara sempre foi só amiga tá gente? Mas mesmo assim fiquei com ciuminho. Ela sacou e me passou a vez pra sentar com a Mineira. Fui descobrindo várias coisas sobre ela, sobre a vida que levava. Tinha chegado de Minas, com a família, tinha irmãos... Enfim... Foi uma amizade muito boa, a gente se dava bem, ela era estudiosa e isso me encanta. Encanta até hoje pra falar a verdade. Trocamos as duplas: agora a Mara sentava com a Kátia e eu com a Mineira. Notas boas, boas conversas. Comecei a frequentar a casa dela também. Estudávamos de manhã e eu ainda passava as tardes na casa dela. Eramos grudadas e cheias de carinho uma pela outra. Aquela coisa bem adolescente mesmo: andar de braços dados na escola, sentar sempre perto, consolar nos namoricos que não davam em nada. Nem precisa falar no que deu né? A dona aqui se apaixonou.

Foi uma paixão tão intensa, que não deu pra segurar. Eu tinha que contar, tinha que colocar aquilo pra fora. Nunca tinha me declarado até então. Aguentei o que pude e inocentemente acreditei que ela também gostava de mim. Dona José, minha mãe, até fez lá seus alertas, mas quem disse que adiantou? Quem disse que ouvi quando minha mãe disse que eramos muito grudadas?

De agosto até o final do ano o tempo passou. E passou de uma forma que parecia que a gente se conhecia desde criancinha. Era amiga da família já.

Se eu tivesse ficado quieta teria essa amizade até hoje. Mas eu sou boca aberta. E ansiosa também. Não deu outra: em Dezembro, saindo de casa num fim de tarde, enquanto ia acompanhar a dona Mineira até a casa dela, porque apesar de morarmos no mesmo bairro eu não gostava que a "minha mulher" andasse sozinha por aí.

Peguei a bicicleta e fui empurrando. E conversando como sempre. Da minha casa na casa dela a pé deve dar uns 10 ou 15 minutos. Com cinco minutos de caminhada, eu soltei que gostava dela. Não lembro exatamente como disse, nem que palavras usei. Sei que os outros 10 minutos foram de silêncio. Um silêncio que incomodava.

Já estávamos de férias. Saberia que não iria vê-la pela manhã do dia seguinte.
Voltei pra casa e aí me caiu a ficha do que tinha acontecido, da burrada que eu tinha feito: não bastasse eu me declarar pra uma guria hetero, ela era homofóbica.

Não lembro mais como, nem o porque, mas ela contou pra mãe dela. Que contou pra vizinha, que contou pra igreja toda. Detalhe: Eu ainda era coroinha. Que bela situação hein?

Não preciso dizer que ela me jogou um monte de coisas na cara, né? Que achava tudo aquilo nojento, e que eu tinha me aproveitado da amizade pra dar em cima dela, que ela não esperava isso de mim e bla bla bla.

Não bastasse isso, além de pararmos de nos falar, o que era óbvio, os pais dela ainda mudaram ela de escola no ano seguinte. Me senti O, ênfase no O, O monstro. Afinal eu me sentia um ser tão repugnante que tinha feito outra pessoa mudar de escola.

Eu tinha 16, quase 17 anos. 2001 foi muito bom valeu pelos últimos meses. Mas 2002 foi um saco. Demorei pra levantar e sair dessa. Hoje vejo que quase entrei em depressão naquela época. Além de me sentir mal, não tinha com quem contar, porque ela era amiga também, eu tinha um colo, uma companhia. Emagreci e foi nessa época que minha gastrite deu sinal de vida.

Bem vinda ao mundo real! Eu pensava. Mas nada que o tempo não cure, certo?
Depois desse episódio é que conheci a minha irmã Batatinha. Quando eu a conheci ainda era um pouco triste por causa da Mineira. E nada cura melhor uma velha paixão do que uma paixão nova. O resto da história eu já contei.

Não sei exatamente a passagem de tempo. Misturo muita coisa. Vou contando conforme vou lembrando. E essa época pra mim é uma época cheia de recordações. Ainda falo com a Mara, mas é algo de uma vez ao ano. Hoje ela é também uma das amigas hetero que sabem de mim.

O terceiro colegial foi muito bom. Me libertei do estigma de nerd. Comecei a mudar algumas coisas. Saudade dessa época até hoje. Paralelo a isso tudo eu sempre tinha meus casinhos com alguns meninos, mas nada que durasse muito tempo.

10 já falaram

Cris. disse...

Agora entendi porque essa história merecia um post só dela. oO

...

Bjo

Lucas disse...

Minha primeira visita aqui. De cara, já adorei! Putz, o primeiro grande trauma nunca some né. Ainda mais com a gente novinho, sem muita certeza de nada, e experiência então...

Volta mais vezes.

Bjo, Lucas.

Fernanda disse...

Encontrei este blog linkado em um dos muitos que visito. A princípio entrei mais por curiosidade, pois achei o título interessante.
Desde então, ele se tornou parada obrigatória.
Parabéns pelos ótimos textos, é incrível o quanto a história da gente (mulheres que amam mulheres) se assemelha em determinado ponto. Os medos, as neuras...é tão familiar que até assusta!
Sobre a Mineira, quase todo mundo ficou sabendo, menos seus pais? Você deu sorte, porque tem gente que gosta de ver o circo pegar fogo nessas horas e não perde a oportunidade de dar um jeito e contar.
Bjs

Anônimo disse...

Muito feliz por sua disponibilidade ter sido similar a minha curiosidade nesses dias...
Clara

Alice disse...

Esse trauma vale por dois, ou três! Ainda mais nessa idade, quando somos ainda tão vulneráveis...

manicomiomundo disse...

Putz,esse foi forte ein?

Gay Alpha disse...

Uma palavra: punk! Hehehe!!! É como dizem: o primeiro trauma a gente não esquece!!!
Tens razão sobre seu comment: o furinho no queixo é um super detalhe... hehehe!!! Bjos!

Garotas Nada Vazias disse...

Ih gente... Se tem um lance que é complicado é o tal do gostar. Dificil demais lidar com isso, independente da idade, mas acho que a situação se agrava nessa época de descobertas e "fortes emoções".


Mas o que ficam são as lembranças.


\o/


Beijos!


Claire

Thais disse...

ownnnn tadinha, mas acontece né, comigo nunca aconteceu, pq sou irresistivel, rs, claro q não né, pq sou timida mesmo e nunca me declarei pra ngm, a não seu ser pra minha namorada, mas isso depois q ja estavamos juntas, pq ela deu o pontapé inicial.

Maria Sapatilha disse...

nossa, Prisccila! que terrível isso! minha adolescencia tbm foi bem fracassada no tópico "amor", mas nessa época eu só me apaixonava por meninos muito mais velhos que não ligavam pra mim. Na verdade eu não me "apaixonava" meeesmo. As meninas só vieram depois, na faculdade. Quando a primera mulher se declarou para mim eu estava namorando um menino(que eu amava muito!)e fui muito delicada e cuidado com os sentimentos dela. Mas a primeira paixão mesmo só há dois anos,com a minha atual.

cruel essa mineira! biatch! Nem consigo me imaginar apaixonada por uma hétero!

ainda bem que dor de amor passa...

adorei a visita no blog, depois me conta do "aimée e jaguar"
=*

Real Time Analytics