21 janeiro 2009

Um trecho...

Ajoelhou-se trêmula junto da cama pois era assim que se rezava e disse baixo, severo, triste, gaguejando sua prece com um pouco de pudor: alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.
- Clarice Lispector - Uma aprendizabem ou O livro dos prazeres.

Às vezes tudo o que gente precisa é saber pedir.

3 já falaram

Gay Alpha disse...

Arrasou! Clarice Lispector é uma das minhas autoras preferidas... tudo que ela escreveu soa como um chamado vivo à reflexão!
E tudo bem... a Juliana Paes pode até ser bonitinha, mas duvido que seja tão bela e inteligente quanto você!!! Hehehe!!
Obrigado pelo comment! Gosto muito quando vens me visitar!!!
Beijos!

C. disse...

Caramba, mais uma vez moça, matou a pau!!!!

=*

manicomiomundo disse...

Realmente a Clarice é única e esse livro(por sinal estou lendo agora,pela milésima vez)é algo extraordinário.

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