27 janeiro 2009

O pseudo namorado

Estava caminhando com minha mãe ontem a tardezinha. Enquanto caminhávamos, começamos a conversar sobre aquelas fofocas de família, aquelas que toda família grande tem: a prima que engravida e não casa, a gravidez da outra prima, o namoro do primo, o casamento dos tios e os comentários da minha digníssima avó.

Entre passadas espaçadas na longa avenida arborizada que eu tenho o prazer de morar, enquanto eu tentava disfarçar meus olhares para as outras meninas que caminhavam também, minha mãe toca no assunto de eu ter o costume de às vezes dormir na casa de um amigo meu, que por sinal é gay mas ela não sabe desse detalhe. Ela fica imaginando o que minha avó vai dizer quando souber de uma coisa dessas, porque pra minha família eu estou namorando com ele tem um tempo já. Tudo bem que eu não faço questão nenhuma de desmentir, até porque a gente aproveita pra caramba junto: ele com os bofes e eu com as minas.... rs....

A questão é: porque todo mundo se importa com a vida dos outros? Tudo bem, eu acho que minha prima é sem vergonha, o pai dela pagou faculdade pra ela, a moça engravidou, deixa o filho (que é a coisa mais linda do mundo) com a mãe dela e vai pras baladas da vida. Ela não trabalha, não cuida do próprio filho e ainda vai pra balada com o dinheiro do pai. Meu tio é bobo? É... Eu acho que sim...

Se eu durmo na casa do meu "ermão" ou vivo de baladinhas, pelo menos tenho consciência que estou pagando por isso, trabalho para isso e não peço $ pra ninguém.

Continuamos a conversar, eu perguntei se só porque eu durmo na casa do meu "amigo" se não existe a possibilidade de dormimos em quartos separados. Minha mãe riu e eu ri também, porque no fundo eu sei que essa é a verdade.

Até porque eu não confirmo e não nego nada, se ela quer achar, que ache, que fique com seus achismos...

Só não sei o que seria pior para ela: eu de fato dormir com ele sem namorar e acabar de repente engravidando ou ela descobrir que ele e eu somos mais iguais do que ela imagina: somos homossexuais.

21 janeiro 2009

Um trecho...

Ajoelhou-se trêmula junto da cama pois era assim que se rezava e disse baixo, severo, triste, gaguejando sua prece com um pouco de pudor: alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.
- Clarice Lispector - Uma aprendizabem ou O livro dos prazeres.

Às vezes tudo o que gente precisa é saber pedir.

15 janeiro 2009

Questão de escolha

Estava pensando esses dias até que ponto vale você abrir mão de algo seu para a felicidade de outra pessoa. Até que ponto é sadio ser egoísta e pensar mais em si do que nos outros. E estava pensando nisso porque resolvi pensar e me perguntar no que meus pais esperam de mim.


Sou filha única e penso de uma maneira tradicional, em levar o nome da família adiante, porém sendo lésbica fica difícil pensar nessa questão. Em construir família, ter filhos e tudo o mais. Não porque eu ache que uma famílía com duas mulheres (ou dois homens) não seja uma família, mas porque se eu algum dia casar eu pretendo casar naquele pensamento de que é pra sempre, pra vida toda e por toda a vida, até que a morte nos separe. Aí é que encontro grandes problemas: conheço poucos casais homossexuais que estão juntos há muito tempo. Não sei porque, mas me parece que na ala LGBT é muito mais difícil encontrar relacionamentos estáveis. E isso me deixa com medo.


Outro medo meu é de não ser aceita pelo meu pai. Minha mãe eu sei que terei problemas, mas se eu ficar sem meu pai eu não sei direito como vai ser. Isso não significa que nós sejamos, eu e ele, o melhor exemplo de amizade entre pai e filha, significa apenas que minha admiração por ele é maior que muita coisa.


Aí é que eu estava pensando: até que ponto valeria a pena eu trocar a minha felicidade, pela felicidade dele em me ver num casamento hetero, construindo uma família bacana e dando netos e bisnetos?


Tenho plena certeza que no fundo meu pai já sabe da minha orientação, assim como tenho certeza que se eu resolvesse me casar com um homem eu não precisaria me preocupar com onde morar: ganharia um apartamento fácil em um dos bairros nobres da cidade.

Eu gostaria imensamente de poder contar a ele. Mas tenho medo de acabar ficando sem as poucas conversas que temos.


Enquanto isso vou vivendo minha vida, pensando mais em mim do que nele.


Ao contrário de mim, a guria com quem pensei em me casar, a única diga-se de passagem, durante muito tempo teve coragem suficiente ou foi covarde o suficiente para abrir mão de um nós por conta da família. Eu não sei se a admiro por ser tão forte a ponto de desistir de ser feliz ao lado de alguém que ela ama pra fazer os pais felizes ou se fico triste por ela ter desistido no passado durante um tempo, de um relacionamento que a faria feliz.


Penso em como é injusto. Ou não. Mas é difícil ter que escolher a própria felicidade diante dos seus pais que com certeza desistiriam eles de serem felizes se eu o pudesse ser.

Pensar nisso adia ainda mais a minha decisão de sair do armário.

12 janeiro 2009

Colocando a casa em ordem

Bom, o layout antigo não estava colaborando comigo, alguns (vários) erros na hora de comentar e outras coisas fora do lugar.

Estou procurando por outro, algo que fique legal e fique com a cara do blog, algo mais intimista.

Então vai ser difícil achar alguma coisa em ordem aqui pelo menos durante essa semana.

Acredito que também durante essa semana eu deva subir mais um podcast.
Peço paciência.

Obrigada e uma ótima segunda-feira.

06 janeiro 2009

Naftalina?

Acho que a pior parte de ser sapa, é com certeza viver dentro do armário. Chegar nas festa de final de ano e outras festas familiares e todo mundo mandar a bendita pergunta "E o namorado?". Tudo bem que eu não estou namorando e por agora isso não faz parte dos meu planos, mas viver no armário e não poder contar pra alguns amigos que você prefere mulheres à aqueles gatos malhados da academia dela que ela tanto fala é um saco.



Pior é quando sua mãe começa a achar que você etá namorando com aquele seu amigo gay, aliás seu melhor amigo. Deixar ela sonhar? Desmentir? Qual a atitude correta?  Eu sinceramente estou me enchendo desse cheiro de naftalina, dessa coisa de ficar guardadinha, escondida no armário. Mas qual o melhor momento pra cair fora? Pra dizer? "Mãe eu sou sapatão"? Depende, às vezes, quase sempre, não é o no melhor momento que sua mãe, pai, irmão irmã, papagaio, cachorro descobre, mas uma hora ou outra  esse povo que a gente chama de família vai ter que ficar sabendo, certo? Por essas e por outras que esse ano uma das minhas metas pessoais é contar pra família que eu prefiro meninas. E essa saga pretendo contar aqui para vocês. Será que eu consigo?

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